Factory Girl é um filme baseado na história de Edie Sedgwick e sua relação com Andy Warhol e Bob Dylan. O filme mostra Edie como uma jovem rica dos anos 60/70, que se transforma na superstar dos filmes de Warhol, ícone da moda e modelo. O filme traz como pano de fundo toda a efervescência da cultura underground dos anos 70, com Andy Warhol, Bob Dylan, The vevelt underground e a pop art.
Diversos são os elementos que podem chamar nossa atenção e causar paixão pelo filme. Mas, o que me prendeu não foram as orgias, a arte, a “undergralidade” da juventude popart, ou o figurino (que é impecável), nem mesmo a personagem central. Eu não me apaixonei por Edie Sedgwick, não houve qualquer empatia, aliás.
O que me chamou atenção no filme foi o elemento humanidade, ou a falta dele. Diante de toda aquela entrega de Edie Sedgwick ao mundo, me dei conta de que quando nos entregamos ao mundo, não é o mundo que fica aos nossos pés, mas o contrário: nós é que ficamos aos pés do mundo. Me dei conta de algo mais: a gente é só. Nasce só, vive só, morre só. Cada um que cuide de si, porque o mundo não vai cuidar não. O mundo quer apenas compartilhar da carne e da alma. O mundo não quer cuidar, por isso é preciso saber até onde se dar ao mundo porque o mundo precisa de muita coisa e a gente pode acabar dando tudo o que tem. Se dermos tudo o que temos, não poderemos mais nos sustentar em pé, secaremos. Edie Sedgwick foi sugada pelo mundo e isso foi uma escolha dela.
Isso foi uma coisa. Outra coisa é a amizade, as festas, a alegria das amizades tão preenchedoras das cenas no filme. Edie era tão necessária, bem-vinda e querida, até o dia em que não era mais. Amigos vêm, amigos vão e tudo bem? As pessoas querem carinho, querem reconhecimento, querem intimidade. Existem intensidades e níveis de carinhos necessários? Poderíamos classificar diversos tipos de carinho? Os carinhos coletivos, os sociais, os seguros e certos, os surpreendentes, os íntimos, os profundos…
Mas onde está o carinho? Aquele carinho vital para o permanecer vivendo? Nas amizades? Na família? Seria por conta dessa necessidade de carinho, que as pessoas constituem família, que preservam suas famílias, que agregam/unem famílias? Mas, e se a família falhar no carinho, quem suprirá esse carinho, uma nova família? Amigos são famílias escolhidas?
Família permanece. A família genética permanecerá mesmo que seja na qualidade de rugas, de doenças hereditárias, de genética, de sangue, mas também como princípios, como aprendizados, como sentimentos. Quero dizer, mesmo que você abandone uma família, de pais e tals, ela estará em você sempre? Há condição para isso? Quer dizer, é preciso que haja frutos ou não? Eu, a filha, sou o fruto de uma família. Isso quer dizer que, enquanto eu existir, para sempre, carregarei minha família em mim, mesmo que eu mude meu nome, meu rosto e meu gosto? Mas, e se um dia eu casar, porém não vier a produzir um fruto humano, um filho, e se eu vier a fugir dessa família, eu a carregarei comigo? De que maneira a carregarei, na memória? Família só é família se der fruto? Família é árvore que dá fruto? Existem quantas espécies de frutos além do fruto humano? Onde está o apego?
Se amigos vão e vêm, eles desaparecem? Desaparecem sem deixar marcas ou lembranças? Se assim for, então, amigos não formam uma família. Mas, se família for árvore que dá frutos não-humanos, mas abstrações que nos alimentam como a confiança e os aprendizados, então amizade é árvore que dá fruto.
Então, eu assisto e um pensanto cruel me vem: as pessoas amigas cuidam umas das outras somente até o limite do não precisar. Quando alguém começar a precisar, os doadores de carinho somem? Deveria ser o contrário? Quem precisa é chato, inoportuno e cansativo? O que é o amar? Amar é dar aquilo que o outro precisa?
O que a gente carrega disso tudo? da família genética e da família escolhida? O que seríamos de nós se não houvessem apegos? Não precisar implica em não se apegar? Não se apegar nos põe soltos no mundo. Ficar sozinho é se privar de não sofrer, de não gastar o restinho de carinho guardado? É preservar-se. Mas se preservar de quê? Da decepção, porque decepção gasta o carinho que temos dentro já acumulado. O impasse: amar é alimentar o carinho que há dentro e para amar é preciso não se preservar.
Se não nos apegamos nem amamos e nem sofremos, que humanidade há nisso? Clarice Lispector diz em A Paixão Segundo GH, que o não precisar é que deixa o homem muito só. A carência é o que nos move. Clarice:
“E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Ah, precisar não isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: basta ver o pinto andando para ver que seu destino é juntar-se como gotas de mercúrio a outras gotas de mercúrio, mesmo que, como cada gota de mercúrio, ele tenha em si próprio uma existência toda completa e redonda. Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe de graça – que se chama paixão.”
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Ficha técnica:
Título Original: Factory Girl
Tempo de Duração: 99 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Direção: George Hickenlooper
Roteiro: Captain Mauzner, baseado em estória de Captain Mauzner, Aaron Richard Golub e Simon Monjack
Tagged: amizade, andy warhol, carência, carinho, cinema, edie sedgwick, factory girl, familia, humanidade, precisar, solidão


Amei o filme pelo ambiente cultural, pela irresponsabilidade das ações e por descobrir que as coisas são de milhões de formas e como se torna história de outro jeito completamente diferente. – além do figurino e da Sienna, claro – Mas tive EXATAMENTE a mesma sensação que você. Por onde anda aquela vida toda que cercava aquelas pessoas no inicio do filme. A sensação que dá é que de certa forma as pessoas se desinteressam por alguém, que de repente não parece mais com o que elas admiram…entre outras coisas, concordo em muitos pontos.
gostei da palavra que usou: desinteresse. interessante a perspectiva do desinteresse.