Há dias que certos hábitos afloram mais. Hábitos antigos, passado de antepassados nossos, afloram com mais vigor. Emergem de dentro em direção à carne, tudo umedecendo. Em dias assim, ela se veste do modo que julga mais adequado num quase ritual. Fica nua e se olha no espelho, ansiosa pela transformação daquela imagem numa outra mais próxima dela, de si.
Hidrata todo o seu corpo e borrifa o específico perfume. Veste um espartilho, firme, da cor vinho, e calça meias finas pretas, antigas e bem cuidadas. Calça os sapatos, tão altos, pretos e seguros. Os passos são firmes, com concentração. Veste o vestido preto, tomara que caia, longo de tafetá e muito tecido. Pesado. Não vê seus pés. Ela volta ao espelho, sorri.
Prende seus cabelos num topete alto, num coque despretensioso mais alto ainda. Passa um pó no rosto, clarinho e perfumado, arqueia com maquiagem as suas sobrancelhas e passa seu batom vinho, escuro. Se olha no espelho e se satisfaz, se reconhece.
Segura a cauda do vestido, dá meia volta e caminha até a sala. Se serve uma dose, dupla, do seu whisky tennessee, com uma pedra de gelo, só pelo prazer de girar a pedra no copo. Vai em direção à janela, assiste ao mundo humano do lado de fora, assiste do alto de seu castelo.
Dois goles.
Não gosta de cigarros. Nunca gostou. Escolhe a música: Tom Waits. Deita no sofá em pose de rainha, que é, e se regozija no seu reinado de solidão.
Sorri plena.
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