Um filme que eu sonhei – O espirito do capitalismo
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Ainda no tempo do mercantilismo, na transição para o capitalismo – ou pelo menos era um lugar rústico, que desconhecia a forma dinheiro como capital -, vivia uma família de dois irmãos e alguns agregados. Eles eram bem medievais nas vestes. Ela tinha um lindo cabelo ruivo-acastanhado que batia nos joelhos, levemente frisado e ondulado. Ele era um rapaz bonito, simpático, cabeludo e barbudo – um cara gente boa.
O foco do filme era nos dois irmãos. Acho que o pai, ou os pais, tinham morrido – não ficou explícito. Mas, é certo que o Irmão assumiu para si a tarefa de cuidar da família e foi assim que decidiu aceitar a proposta de um senhor, que há muito flertava com a fazenda deles: a ideia de montar um restaurante italiano.
Acontece que todos da família, inclusive ele, sabiam que aquela comida poderia conter substâncias ruins, como se cancerígenas. Mas, o irmão estava decidido a mudar de vida, a ganhar dinheiro, mesmo com a Irmã relutando em apoiar.
O prato servido era tipo um “capeleti” quadrado. Todos da região frequentavam o restaurante-sítio. Com o tempo, os funcionários e os familiares que moravam e dependiam da produtividade da fazenda foram abandonando seus antigos hábitos alimentares e passaram a se alimentar do prato italiano.
Um dia, curioso, o Irmão resolveu também se alimentar da comida e até a achou boa. Mas, ficou se perguntando “o que será que vai nesse recheio?”.
O recheio era fornecido pelo Senhor, que ía ao sítio-restaurante de tempos em tempos. A comida ficou tão famosa, que eles acabaram se mudando para mais perto da cidade e moraram num casarão bem rico, porém frio e escuro. Lá, montaram o restaurante deles e serviam a tal comida ao pessoal das redondezas. A Irmã, até então relutante, resolveu ceder e começou a trabalhar para o restaurante também.
Eles não percebiam, mas foram se transformando em monstros – fisicamente inclusive. A boca escureceu, os dentes assumiram formas estranhas, nem um pouco humanas. A coluna foi ficando corcunda e o corpo assumiu formas tortas monstruosas. Gengiva escura, olhos fundos, cabelo áspero. O processo de modificação era perene, com o tempo os dedos escureceram, alongaram e afinaram, assemelhando-se a garras negras. A Irmã foi assumindo uma forma ainda mais mesquinha e amedrontadora que o Irmão, ainda mais perversa.
Passado algum tempo, a Irmã assumiu o controle do restaurante e dava ordens ao irmão, que sempre as obedecia. Apesar de não ter compulsão pela comida, como o rapaz parecia ter vez ou outra, ela também se alimentava do tal prato italiano.
Um dia, quando tudo já era cinza, apareceram alguns amigos do rapaz, para salvá-lo da Irmã. Porque nesse tempo, todos achavam ser ela a vilã, a culpada, que ela é que era o monstro que sufocava o Irmão e a toda a família. Isso porque, todos ignoravam ou simplesmente desconheciam o começo da história.
Eis que os amigos bolaram um plano e contaram com a ajuda de uma criança que morava na fazenda. Mesmo a criança tinha um aspecto de monstro. Os amigos do Irmão haviam combinado com a criança de ela distrair a Irmã, enquanto eles tirariam o Irmão daquele ambiente medonho, e prometeram à criança que depois que ele ficasse bom, eles voltariam para buscar um a um.
Quando o Irmão estava do lado de fora da casa, conversando com um dos amigos, a Irmã apareceu gritando e chamando pelo irmão (eles não se separavam nunca). Ao sinal do amigo, veio em disparada um carro amarelo do fundo da casa e o Irmão foi sequestrado.
A Irmã gritou um grito medonho e correu desesperada para tentar impedir o sequestro, mas a criança que estava na espreita, a impediu. A criança estava munida de um arame, que ela passou pelo pescoço da Irmã e a fez cair deitada no chão. Ao cair, a criança a enforcou com o arame até a sua morte.
O Irmão deu um grito medonho no carro, de dor. Parecia que ele mesmo tinha sido o esganado.
Com a morte da Irmã, a sede do restaurante explodiu, a casa explodiu e tudo era chamas. Após alguns segundos de espanto, a Irmã acordou, como que de um sono profundo, sem nada entender. Foi como se sua alma pura ainda estivesse viva em algum lugar dentro dela. Viva e preservada. Ela morreu, mas não morreu.
O espírito que antes morava na irmã, foi procurar morada no Irmão, se fortalecendo dentro dele. Foi assim que o Irmão gritando no carro assumiu sua forma mais medonha e tentou voltar enfurecido para casa. A impressão que ficou era de que o espírito perverso estava dividido entre todos da fazenda, mas principalmente entre a Irmã e o Irmão. Com a morte da Irmã, o espírito perverso perdeu sua “casa” e foi abrigar-se no corpo do Irmão, fortalencendo-se.
A cena é cortada.
De repente, começa uma nova cena, em 2013. Um desfile na semana de moda de Paris. Roupas lindas, fotógrafos, tal como deve ser uma semana de moda em Paris. Eis quando, na passarela, uma velhinha se põe a dar cambalhotas entre as pernas longas das modelos – todos riem. Fazia parte do espetáculo do desfile.
Tudo escurece, a tela fica preta e o filme acaba.
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